A origem do esquema Master na Bahia
A implosão do Banco Master virou um jogo de empurra em Brasília. Desde que Daniel Vorcaro foi preso e a extensão do rombo veio à tona, apoiadores do governo Lula repetem na CPMI do INSS o apelido “BolsoMaster”, como se a história começasse em 2019, com a autorização dada pelo Banco Central para a compra do Banco Máxima.
Não começa. Essa é só a fase em que o esquema ganha escala bancária. A origem política, a arquitetura do produto e a rede de proteção que permitiu sua expansão têm outro endereço. O caso Master tem as digitais do PT desde a fundação.
A estrutura que deu lastro ao banco foi desenhada na Bahia, sob os governos petistas de Jaques Wagner (hoje senador e líder do governo) e Rui Costa (ministro-chefe da Casa Civil), a partir da transformação de um cartão vinculado à folha de servidores em uma máquina de crédito consignado em massa.
Foi esse ativo que Augusto Lima levou ao negócio - e com ele Daniel Vorcaro encontrou o combustível para transformar o Banco Máxima no Banco Master.
A Empresa Baiana de Alimentos, a Ebal, foi criada em 1979 pelo governo da Bahia para garantir acesso da população de baixa renda a itens básicos de consumo. Sua principal marca era a rede de supermercados Cesta do Povo. Em seu auge, operava mais de 300 lojas em 229 dos 417 municípios.
Mantinha frigoríficos, armazéns e centros de processamento. O ativo mais estratégico da Ebal, no entanto, não estava nas prateleiras. Estava no CredCesta, programa de crédito vinculado diretamente à folha de pagamento dos servidores públicos estaduais.
Ao longo dos governos do PT na Bahia, a empresa entrou em deterioração. Em 2012, faturava cerca de R$ 600 milhões anuais e liderava o varejo estadual. O Tribunal de Contas do Estado calculou rombo acumulado de ao menos R$ 381,8 milhões no período do petista Jaques Wagner como governador.
Em 2016, registrou perda de R$ 158,1 milhões em um único exercício. Rui Costa, sucessor de Wagner, iniciou formalmente o processo de privatização por decreto em outubro de 2015. Dois leilões fracassaram.
Quando o terceiro foi realizado, em 13 de abril de 2018, a empresa já havia encolhido para 49 lojas e o valor mínimo havia caído para R$ 15 milhões. Surgiu um único interessado: a NGV Empreendimentos e Participações, empresa fundada no próprio ano do leilão, com capital social de R$ 500.
O representante foi Ignacio Morales, ligado à Ginso, grupo espanhol que já mantinha interlocução com o governo baiano e com Augusto Ferreira Lima, o “Guga” Lima. Formalmente, o nome de Augusto Lima não aparecia na operação.
O que se vendia ali não era uma rede de supermercados em declínio. Era o acesso a uma base cativa de servidores públicos, com desconto automático em folha e margem para expansão agressiva do consignado. O varejo era o invólucro. O CredCesta era o prêmio.
A condução política do processo passou por Jaques Wagner, então secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia. Em fala pública no início de 2026, Wagner descreveu com naturalidade a lógica do negócio: “Apareceu o Augusto Lima, que nem era do banco".
"Era um cabra que vendia consignado em sindicato. Ele se interessou porque na venda da Cesta do Povo, estava embarcado o cartão cesta, que o estado dava para todos os funcionários e aposentados. Comprava no cartão e ia ser descontado na folha no mês seguinte.”
A privatização foi apenas a primeira etapa. Duas semanas depois do leilão, Rui Costa assinou decreto que ampliou a margem consignável dos servidores vinculada ao cartão para até 75% da renda: 30% de margem consignável exclusiva, mais 50% para expansão de serviços financeiros.
Em janeiro de 2019, os cartões passaram a ser distribuídos automaticamente a todos os servidores ativos e inativos do estado, sem pedido prévio e sem autorização expressa individualizada. Associações de servidores, como a Asteba e a Asseba, passaram a operar como intermediárias.
Em janeiro de 2022, Rui Costa assinou novo decreto, agora proibindo a portabilidade de empréstimos consignados dos servidores para outros bancos. O efeito prático foi criar barreira de saída: servidores endividados com o CredCesta não podiam migrar para instituições com taxas menores.
O monopólio foi juridicamente blindado.
Em 2020, Augusto Lima levou a carteira do CredCesta para o Banco Master, tornando-se sócio de Daniel Vorcaro e assumindo a presidência executiva. A carteira chegou a representar a totalidade do portfólio de varejo do banco, participação que só recuou para cerca de 80% com o crescimento posterior do Will Bank. O CredCesta se expandiu para 176 municípios em 24 estados.
Em novembro de 2023, com Augusto Lima na presidência do banco e a captação agressiva de CDBs no auge, o governador baiano Jerônimo Rodrigues (PT) foi convidado de honra no lançamento do Instituto Terra Firme (ONG criada por Lima) no Museu de Arte Moderna da Bahia, onde anunciou parceria oficial do governo estadual com a entidade.
Enquanto isso, o Portal da Transparência do estado registrava uma relação financeira paralela: entre 2023 e fevereiro de 2026, o governo da Bahia realizou 207 pagamentos ao Banco Master, totalizando R$ 49,2 milhões, sendo R$ 47,4 milhões concentrados em 2024, quando o banco já estava sob escrutínio do mercado e do Banco Central.
O governo afirma que os repasses decorrem de antecipação de precatórios do Fundef por livre escolha de servidores da educação, nos termos da EC 114/2021, e que o Master foi regularmente credenciado para operar nesse mercado. O processo de credenciamento e as condições oferecidas aos servidores não foram detalhados pelo governo até o fechamento desta reportagem.
Com o colapso do Master e Lima preso, a margem consignável que o CredCesta ocupava nos contracheques de milhares de servidores baianos, cerca de 30% da renda, ficou disponível. Em dezembro de 2025, o governo regulamentou um programa habitacional para servidores prevendo o uso exato dessa margem liberada.
O CredCesta havia nascido num governo petista baiano, crescido com suporte estatal e, depois do colapso, servia de argumento para uma nova política pública do mesmo grupo. Em 6 de fevereiro de 2026, questionado pela imprensa sobre sua relação com Lima, Jerônimo respondeu com uma palavra: “fake news”. Disse que o diálogo havia sido “meramente institucional”.
O Banco Master também estendeu seus tentáculos à oposição baiana. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelou que a empresa de consultoria do ex-prefeito de Salvador ACM Neto, recebeu R$ 3,6 milhões do Master e da Reag em partes aproximadamente iguais, entre dezembro de 2022 e maio de 2024.
ACM Neto confirma os pagamentos e diz que referem-se a consultoria em análise da agenda político-econômica nacional. Matéria de David Agape, de A Investigação
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