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cyro de mattos
1.Abril.2026

Sexta-Feira Santa


Todos os santos na igreja eram cobertos com um pano roxo na Semana Santa, menos Jesus Cristo. Era proibido comer carne vermelha e beber leite. A refeição matinal era com café e pão. À noite a refeição era a mesma. Ainda bem que tinha um pouco de arroz e peixe no almoço. Achava sempre um jeito de chupar uma manga, um pedaço de melancia ou laranja para tapear a barriga e não sucumbir à fome. Fazia isso com cuidado, sem que minha mãe soubesse. Ela dizia que as pessoas deviam jejuar na Semana Santa, em sinal de amor e respeito à morte do Cristo. O jejum era só naquela semana, passava logo, ninguém ia morrer por isso.

O comércio cerrava as portas na quinta e sexta-feira. Ninguém trabalhava nesses dias. A mãe falou que um homem entendeu de tirar leite da vaca na Sexta-feira Santa para tomar no café da manhã. Quando ele começou a puxar as tetas da vaca, só saía sangue em vez de leite. Aquilo era um sinal do céu para que o homem respeitasse o dia em que Jesus Cristo, o bem-amado salvador da humanidade, foi crucificado sem piedade pelos homens.

Assistia ao filme sobre a vida, paixão e morte de Jesus na matinê da Quinta-Feira Santa do Cine Itabuna. As pessoas saíam tristes do cinema quando o filme acabava. Ninguém se conformava com o que fizeram com Jesus, que foi coroado com uma coroa de espinho, depois de ser cuspido e chicoteado. Para não se falar na cruz pesada que o pobre coitado carregara pelas ruas. Não satisfeitos com tanta judiação ainda pregaram o filho de Deus na cruz de maneira cruel. Em vez de água quando Ele pediu, deram vinagre e, por último, enfiaram uma lança no coração. Era demais o sofrimento de Jesus, muita gente chorava.

E tudo por causa do Judas, que traiu Jesus por um saquinho de dinheiro em moedas. O Judas passava como um dos apóstolos de Jesus, mas se rendeu à tentação do dinheiro. Deu um beijo na face para entregar o filho de Deus aos soldados romanos. Todo mundo se vingava do Judas quando no filme ele aparecia enforcado, o corpo do traidor balançando numa corda amarrada ao galho da árvore seca. Nessa hora o cinema quase vinha abaixo com as vaias da plateia.

Tinha uma sensação na procissão da Sexta-feira Santa que tudo era pecado, dor e lamento pelo que fizeram a Jesus. A imagem de Nosso Senhor Morto era levada no andor pelas ruas principais da cidade sob os cantos que falavam de pesares e perdão: Perdoai, Senhor, por piedade,/ Perdoai, senhor, tanta maldade, /Antes morrer, antes morrer/ Do que Vos ofender...

A tristeza estava nos ares por onde a procissão andava com Nosso Senhor Morto, o povo sofrendo nos passos pelas pedras do caminho. Gente acompanhava a procissão descalça para pagar alguma promessa em razão da graça alcançada através da bondade do Cristo Salvador. Dona Olívia, a mulher do dono do Hotel Itabuna, vestida num comprido vestido roxo, que tocava os pés, cabelos compridos caindo nas costas, fazia o papel de Maria Madalena. A matraca tocava, a procissão parava enquanto ela exibia o rosto do Cristo no sudário.

Numa voz doída, ela arrancava suspiros e lágrimas dos fiéis calados naquele trecho de rua em que a procissão parava. Dona Olívia entoava o cântico: Pai salvador/ Misericordioso, / Toca no meu peito/ O sofrimento Teu. // Fadiga, sede, fome, / Cuspe, espinho/sangue, /Chicotada, prego, madeira feita cruz. // Meu Pai, perdoai/ Os pecados meus.

Na Sexta-Feira Santa daqueles tempos parecia que a terra tinha estagnado a sua respiração ali na cidade, de tanto era a tristeza que havia pelos ares e no roxo que tingia as pedras do caminho.

 

 

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# Artigo do escritor Cyro de Mattos. Autor de 76 livros pessoais, de diversos gêneros. Seis são de crônicas e, entre eles, O Mar na Rua Chile, Finalista do Jabuti, concorrendo com Fernando Veríssimo e Moacyr Scliar, renomado contista, e Alma mais que tudo, Prêmio Sabiá da Crônica da Revista RUBEM.

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