O Baianês
Uma variedade da língua portuguesa no Brasil deu origem ao dialeto baianês. Quando alguém fala em baianês, logo pensamos no dialeto falado pelas gentes de Salvador de Bahia e do Estado. O baiano mostra versatilidade nessa versão variada da língua quando então cria termos engraçados e expressões sábias. Sem se importar com as normas da gramática, consegue níveis surpreendentes da fala, pondo no seu conteúdo humor e poesia irreverente.
Dialeto saboroso, encontramos no baianês termos que fazem sorrir quando são pronunciados com naturalidade, como abilolado, abestalhado; arerê confusão; beinho, benzinho; binga, piroca, pica; brega, puteiro; brôco, aéreo, desorientado; cunhão, culhão. E ainda outros, que tira qualquer um do sério quando se escuta, como descachimbado, fatigado; desmarcado, fora do normal; embocetado; correndo ligeiro, entupido, com prisão de ventre; engrisilha, confusão, enrolado; esperretetê, esporro; folozado, folgado; furunfar, dar uma, trepar; humilhante, ônibus; jaburu, mulher feia; incurungujada, pelancuda; piripicado, com certeza; quenga, puta; xereca, xoxota, e xibungo, sacana, frouxo.
Também encontramos expressões numa língua diferente como cabeça arromba-parede, cabeçorra; doutor pasta-vazia, advogado sem cliente; jogar o barro, cagar; jardim de João Terrão, jardim da saudade; liso, leso e louco, na pior; lá ele, outra pessoa, que não eu; na moral, numa boa; na mão grande, algo feito na marra; puta que pariu, meu louro, puta que pariu; roer beira de penico, fase ruim; tamborete-de-puta, homem pequeno; tá de calundu, tá zangado e tesão de jumento, homem garanhão.
Às vezes, a palavra nasce da fusão de outras, o resultado é um novo termo, com sotaque saindo numa sonoridade que mexe com o riso de qualquer um. Assim tão inventivo quanto espontâneo, o vocabulário baianês conta com dezenas de gírias e termos próprios, que mudam o sentido de frases comuns. Costuma abreviar palavras e acabar criando outras com significado que pode ser até diferente do original.
Oxe é uma abreviação de oxente, também de ô gente. Perdeu o significado original e hoje é utilizado para situações de não entendimento. Opaió é uma abreviação de olhe para aí, olhe, juntando ó, pá, aí e ó. Com a sua entonação que causa espanto, a palavra opaió surgiu numa incrível síntese criativa, produzida pela peripécia de uma inteligência popular incomum, sempre consoante ao seu grau de cultura e sabedoria.
A palavra porra no baianês tem funções múltiplas e vários significados. Pode ser substantivo, adjetivo e advérbio. Capaz de servir como expressão interjetiva ou interrogativa. Que porra é essa? Que é isso? Fala pa porra, não para de falar. Pegue logo suas porras, arrume suas coisas, se mande. Vá pa porra! Vá pra merda! E aí, porra, e aí meu amigo. Ô porra!, Ô merda! (topada).
Ficar exibindo alguns predicados dos termos e expressões em baianês, como o cronista fez até agora com a palavra porra, por exemplo, podemos estar correndo o risco capaz de topar com algum gramático puritano, que não gostará nada disso. Por cautela aconselha-se parar por aqui e finalizar o texto sobre as façanhas e artimanhas do baianês.
Revoltado com o aviltamento praticado contra o idioma escorreito, esse adepto do português castiço não pensará duas vezes, capaz de dizer a todo pulmão, se pique, seu porra, deixe de ofender a pureza de nossa língua, a última flor do Lácio, dando importância à porra desse tal de baianês, vá morar na casa da porra, onde o que não falta é porra, pra todo lado, de todo tamanho, pra todo gosto, é cada porra, chegando a estremecer as paredes.
Porra na sala de visita, nos quartos, nos corredores, na mesa de refeições, na cozinha, no banheiro, no pátio, no telhado, no quintal, porra pra cá, porra pra lá, porra com a luz acesa, porra com a luz apagada, uma chuva de porra, que não para, às vezes no duelo de marido e mulher passando a ser porra contra porra. Ou até mesmo zorra.
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# Artigo do escritor Cyro de Mattos. Autor de 76 livros pessoais, de diversos gêneros. Seis são de crônicas e, entre eles, O Mar na Rua Chile, Finalista do Jabuti, concorrendo com Fernando Veríssimo e Moacyr Scliar, renomado contista, e Alma mais que tudo, Prêmio Sabiá da Crônica da Revista RUBEM.
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