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abracos na pandemia
13.Fevereiro.2021

As cicatrizes de uma pandemia


Uma pesquisa da USP, em 11 países, revela o Brasil como o país que mais tem ansiedade (63%) e depressão (59%) na pandemia. Não podia ser diferente. Brasileiro gosta de grudar, desde pequeno. Já nascemos assim e assim somos o lugar mais acolhedor do planeta.

O europeu que comete o desatino de visitar nosso país não sabe onde está se metendo. Acostumado a relações distantes, sem contato físico, ele é rapidamente atacado e dominado pelo calor dos brasileiros. Não foram poucos os ingleses, franceses ou alemães que vi apavorados em seu primeiro dia por aqui.

O brasileiro gosta de carinho, abraços, beijos, contato, bate papo, encontro com amigos, pizza com a família, praia, bares, estádio cheio, passeio no parque, ajuntamento, calor humano. Para ele tudo isso é essencial, não opcional. É impossível, para nós, encontrar alguém sem abraçar, beijar.

Um desconhecido qualquer, ao se aventurar pelo Brasil, já é recebido com três beijos e muitos abraços, como se fosse um amigo antigo ou como se estivesse voltando para casa. A conversa é com toques no ombro, nos braços, abraços repentinos e carinho ilimitado.

Um inglês, que cresce respeitando o espaço em volta de cada pessoa como área proibida, recebe nosso carinho como um raio, que se espalha e domina tudo até que ele se renda. Até que aceite que sua vida, por aqui, nunca será igual a de seu país. Ele vira um aprendiz de calor humano.

Somos feitos assim. Crescemos assim e nunca imaginamos um dia ser impedidos de ser... brasileiros.

A pandemia fez com que as avós não possam abraçar e beijar os netos. Tios e tias ficaram longe dos sobrinhos. Amigos só podem se encontrar online e, quando se encontram ao vivo, não podem se abraçar, beijar, grudar. Nada podia ser mais deprimente para nós.

É até estranho que a gente esteja sobrevivendo sem tudo isso. Tudo bem, adultos se adaptam e já têm a serenidade, que a idade traz, para esperar pacientemente o dia em que as relações voltarão ao normal. Pior é para as crianças, para mim uma verdadeira tragédia.

Se para nós a situação é deprimente, para elas é impossível. A infância é quando fazemos os primeiros "melhores amigos para sempre", é quando mais abraçamos e beijamos sem medo, é quando formamos nossa tchurma, quando podemos brincar à vontade sem se preocupar com a vida.

Cresci jogando gude na praça, batendo bola na rua, brincando de esconde e de bandeira. A juventude foi de muitos amigos no bar, na boate, no cinema, na Beira-Rio. As festas de aniversário e, principalmente, de Natal, eram com dezenas de primos, amigos e parentes.

Até 2019 eu podia almoçar com os amigos no Los Pampas, reunir outros na pizzaria. Podia abraçar cada um, conversar em grupo, ir ao cinema, tomar café com eles no shopping. Está certo que eu não sou de sair muito, mas uma coisa é não querer sair, outra é não poder.

Faz parte da coisa que mais prezo na vida, a liberdade. Liberdade para falar o que quiser, ter a opinião que quiser, vestir o que quiser, fazer o que quiser... abraçar quem quiser, me aglomerar com quem quiser. Definitivamente esta pandemia nos tirou isso, a liberdade.

Mais, ela nos transformou, na marra, em seres menos calorosos, menos afetuosos. Com menos abraços e beijos, nos tornamos mais ácidos, mais ranzinzas, mais implicantes. Voce pode ver isso nas redes sociais, onde opinião própria virou crime, onde amigos não podem conversar cinco minutos sem discutir.

Esta pandemia vai passar, como tudo na vida. Só não sei quantas cicatrizes deixará.

# O editorial de A Região, por Marcel Leal.

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