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primos e irmaos Eu e meus primos-irmãos Marcos, Carlos Walter e Nélson na praia de Caraguatatuba
25.Novembro.2021

Uma lembrança de Natal


A casa, na Vila Maria, bairro classe média de São Paulo, estava cheia de crianças correndo de um lado para o outro, excitadas com a data.

Na cozinha, de onde exalava um cheiro forte de peru assado, um grupo de mulheres conversava animadamente, sobre filhos e netos.

Na sala, os homens falavam de futebol, política e economia, em meio a muitas piadas e histórias engraçadas dos amigos.

O destaque era uma árvore de Natal super decorada e cheia de presentes em baixo, das tias (meias e cuecas), das avós (roupa) e pais (brinquedos).

No quintal, a criançada se divertia em brincadeiras de pique e esconde-esconde, ou jogava bocha no campo feito por meu avô ao lado do pomar.

Eram uns 15 primos, mais as tias, avós, pais e os amigos que apareciam para bater um papo antes de ir para casa.

A casa, de minha avó, tinha decoração de Natal por toda parte, mas o lugar favorito da criançada era o quintal, com pés de jabuticaba e manga.

Era assim o Natal de minha família, comandado por minha sempre sorridente “vó Nêna”, na minha infância.

A mesa, fartíssima, tinha o tradicional peru, mas também exibia presunto defumado, pães de vários tipos, bolos variados, massa feita por ela mesma, passas, nozes, castanhas, um delicioso panetone caseiro.

A bebida dos mais velhos era vinho, de qualidade, que era guardado numa cristaleira bem antiga, e muita cerveja. A nossa, suco e tubaína.

As brincadeiras acabavam por volta das 20h, quando todos partiam para a comilança, em uma mesa enorme, onde cabia quase todo mundo.

Depois era a espera pela meia noite, quando os adultos iam assistir a Missa do Galo e as crianças se jogariam sobre os presentes que, enfim, podiam ser abertos e curtidos.

Com 15 primos e muitas tias, imagine a montanha de pacotes sob a árvore.

Os brinquedos entravam em ação imediatamente. Já as roupas eram ignoradas, depois de um “obrigado” meio amarelo a quem deu...

Uma coisa bacana era que muitos vinham de longe para esta reunião anual.

Além da gente, que ia da Bahia, tinha a família de meu tio Heitor, vinda de Santos e de meu tio Nine, que morou em vários estados.

Era festa de reencontro.

O Natal foi assim até a gente perder a âncora da festa, minha avó Nêna.

Depois disso, a vida foi seguindo seu ritmo, mudando o Natal de várias das famílias. As de São Paulo ainda se reúnem, mas nem sempre estão todos por lá, como eu mesmo.

Mas as lembranças do Natal de minha infância nunca se apagam e ainda me divirto lembrando delas.

É aquele tipo de boa lembrança que traz um sorriso leve ao rosto e um conforto gostoso que se espalha.

A Vila Maria mudou, vários tios e meus avós já foram para a próxima vida. Os primos moram longe.

Mas aquelas festas de Natal, lembradas a cada ano, me dão a certeza de que o Natal nunca foi brinquedo e comida, mas sentimento e amizade.

Ficam as lembranças de gente que ajudou a moldar o que sou hoje, pelo exemplo. Me olhando no espelho da vida, vejo que carrego um pouco da personalidade de cada um deles.

Como meu avô Walter, um fantástico contador de histórias que prendia nossa atenção por horas a fio.

A alegria quase infantil e o otimismo sem limites de meu tio Zezé, que vivia comendo e nos dando balas de amendoim.

A ousadia e garra de meu tio Nine, que tinha a alma e a coragem de um desbravador.

As lições de meu tio Tinho, que soube viver bem, se divertindo e ensinando, na escola e na vida.

A lucidez de minha avó Zilda, que conversava sobre os assuntos atuais com sabedoria e era uma cozinheira incrível.

A alegria sorridente de minha vó Nêna, carinhosa e outra fantástica cozinheira.

Meu pai, que me ensinou jornalismo e caráter, além do valor de ser independente.

São parentes queridos que comemoram o Natal em outra dimensão, outra vida.

Para eles, meu obrigado perene, pelos ensinamentos, pelo amor, por tudo.

Não lembro deles só no Natal, nem com tristeza.

Todos nascemos com prazo de validade nesta vida e passagem garantida para a próxima. Seria egoismo querer todos aqui para sempre.

Para mim, todos estão comigo no dia a dia, porque sempre lembro de uma ou outra coisa que disseram, exemplos que me deram.

Meu Natal é completo, porque une o que já foram e os que estão. Em comum, minha gratidão e meu amor por todos eles.

 

Uma observação: ia escrever um texto sobre o Natal, mas lembrei deste, que escrevi há uns 10 anos e que expressa meu sentimento perfeitamente. Não fazia sentido escrever um novo.

# O editorial de A Região, por Marcel Leal.

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