“Não há Nada que Resista ao Tempo”
“Não há nada que resista ao tempo. Como uma grande duna que se vai formando grão a grão, o esquecimento cobre tudo. Ainda há dias pensava nisto a propósito de não sei que afeto. Nisso de duas pessoas julgarem que se amam treloucadamente, de não terem mutuamente no corpo e no pensamento senão a imagem do outro, e daí a meia dúzia de anos não se lembrarem sequer de que tal amor existiu, cruzarem-se numa rua sem qualquer estremecimento, como dois desconhecidos.
Essa certeza, hoje então, radicou-se ainda mais em mim.
"Fui ver a casa onde passei um dos anos cruciais da minha vida de menino. E nem as portas, nem as janelas, nem o panorama em frente me disseram nada. Tinha cá dentro, é certo, uma nebulosa sentimental de tudo aquilo. Mas o concreto, o real, o número de degraus da escada, a cara da senhoria, a significação terrena de tudo aquilo, desaparecerá”, cito o escritor português Miguel Torga, em "Diário (1940)", um texto que li no voo de São Paulo para São Luís.
Havia passado uns dias no planeta SP, onde tudo é superlativo. Correndo de um lado para o outro, açambarcado de compromissos e afazeres.
Tenho escrito sobre a passagem do tempo continuamente, talvez, por ter menos tempo pela frente que gostaria. No outono da vida, sinto tudo acelerar, sem que eu possa nada fazer. Pensei que depois de velho iria desacelerar. Ledo engano.
Levanto, descortino a janela, tomo meu “desayno”; em pouco tempo é hora de almoçar. A tarde esvaísse rapidamente. Chega a noite, sorrateiramente, pondo um ponto final em mais um dia. Já deixamos sete meses para trás de um ano que começou há pouco.
"O passado é absoluto e irrecuperavelmente passado. Mas, ao mesmo tempo, o passado é presente e contém futuro. Ele limita as possibilidades vindouras e liberta outras; está previamente dado em nossa linguagem, está gravado em nossa consciência, assim como no inconsciente, em nossas instituições e em sua crítica”, cito o historiador alemão Reinhart Koselleck.
Autor do livro “Futuro passado”. Para Koselleck, a experiência é o passado tornado presente, repleto de memórias e lições consolidadas. A expectativa é o futuro antecipado no presente - a área dos desejos, planos e temores. A modernidade é definida pela crescente distância e assimetria entre essas duas categorias: o passado deixa de ser um guia exato para um futuro que se projeta cada vez mais desconhecido e aberto a transformações.
Um pedaço de mim já ficou no passado. Não tenho como resgatar. Foi quando deixei de ler um bom livro, quando ouvi o amigo, quando não aproveitei aquele instante para falar de amor; quando não abracei meu pai e nem beijei minha mãe, que partiram faz tempo. Quando não reservei um tempo para mim, em meio à correria inócua.
Um pedaço de mim se perdeu na curva, quando abandonei o sonho de tentar. Quando aceitei trabalhar onde não gostava. Quando tive de fazer o que não suportava. Quando disse sim, quando queria dizer não. Quando deixei o amor morrer antes de nascer, por medo de sofrer...
Um pedaço de mim ficou parado, quando não quis fazer um novo percurso, quando me conformei com o velho, quando fiquei parado, com medo do novo, do desconhecido.
A vida pede atitude em cada instante, e passa por cima de quem se cala, de quem aceita, de quem acredita que tudo está irremediavelmente perdido. A vida desacata quem não se aceita, humilha quem não se valoriza, ensina com amor os que amam sem medidas, ensina com dor os que fogem das lições.
Um pedaço de mim quer tudo, outro quer se esconder. Assim, cabe a mim, só a mim, dosar ansiedade e apatia, ter um tempo para criar e outro para executar. Falar e ouvir, ensinar e aprender, caminhar e correr, amar e ser amado, falar baixo e gritar, ter um tempo para refletir... “Há tempo para tudo”, ensinam as Sagradas Escrituras.
Só não vale cruzar os braços, só não vale não ser você, só não vale esquecer: que nada é mais importante que você.
Caro leitor, amiga leitora, se puder lhe dar um conselho: Seja maluco o suficiente para enxergar um futuro que você ainda não tem. E, seja disciplinado o suficiente para caminhar nessa direção, que nem um louco.
Avante! Sempre em frente.
Luiz Thadeu Nunes e Silva, Eng. Agrônomo, Palestrante, cronista e viajante: o latino americano mais viajado do mundo com mobilidade reduzida, visitou 162 países em todos os continentes da terra. Autor do livro “Das muletas fiz asas”. Membro do IHGM, Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão. E-mail: luiz.thadeu@uol.com.br, Instagram: @luiz.thadeu
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