Por que o sono é vital para o corpo humano?
Quando foi a última vez que você dormiu realmente bem? Talvez você tenha acordado com a sensação de cansaço, mesmo depois de horas na cama. Ou talvez esteja tão acostumado a noites maldormidas que nem perceba mais o quanto isso afeta seu dia. O fato é simples e inegociável: dormir não é um luxo, é uma necessidade vital, tão essencial quanto respirar.
Mesmo assim, em uma rotina marcada por pressa, prazos e telas que nunca se apagam, o sono costuma ser o primeiro a ser sacrificado. E essa é uma escolha que cobra seu preço. Enquanto você fecha os olhos, seu corpo desperta para um trabalho intenso e silencioso, indispensável para garantir saúde, equilíbrio e vida.
Durante o sono, ocorre uma verdadeira manutenção interna. Nas fases mais profundas, os músculos se recuperam, as células se regeneram e o hormônio do crescimento é liberado. Esse hormônio é fundamental para reparar tecidos e fortalecer o corpo. Muitas dores, cansaços e até dificuldades na prática de atividades físicas podem ser resultado do sono insuficiente, e não apenas da rotina diária.
O cérebro, por sua vez, realiza uma tarefa ainda mais impressionante. Enquanto você descansa, ativa um sistema de limpeza chamado glinfático. Imagine um fluxo de água límpida que circula pelas células nervosas e remove toxinas acumuladas ao longo do dia, incluindo proteínas associadas ao Alzheimer. Quando essa limpeza não acontece de forma adequada, as consequências se acumulam ao longo do tempo.
O professor Álan Eckeli, neurologista da USP, explica: “Se nós dormirmos mal, vamos adoecer e, se pararmos de dormir, vamos falecer. Isso mostra a grande importância do sono.” Em outras palavras, o sono não representa uma simples pausa, mas uma exigência fundamental da vida.
Dormir também influencia diretamente os hormônios do apetite. Aquela vontade exagerada de comer doces e carboidratos depois de uma noite ruim tem explicação biológica. A privação de sono reduz a leptina, que provoca saciedade, e aumenta a grelina, responsável pela sensação de fome. Isso faz com que quem dorme mal consuma mais calorias e tenha maior tendência ao ganho de peso.
A imunidade também depende do sono. Durante o descanso, o corpo produz citocinas, substâncias essenciais para combater infecções. Quando o sono falha, o sistema imunológico enfraquece e infecções se tornam mais frequentes. Dormir mal hoje pode ser a razão de você adoecer amanhã.
O impacto cognitivo talvez seja um dos mais evidentes. Durante a fase REM, experiências são organizadas, memórias são consolidadas e o raciocínio ganha estrutura. Quando esse processo é interrompido, surgem desatenção, lentidão e dificuldade para tomar decisões simples, sinais claros de exaustão cerebral.
O sono é regulado por dois mecanismos essenciais: o ciclo circadiano, que responde à luz do dia, e a pressão do sono, que aumenta conforme permanecemos acordados. Quando esses dois processos funcionam em harmonia, o descanso ocorre de forma natural. Porém, quando há excesso de telas à noite, horários irregulares ou acúmulo de estresse, essa sintonia se perde.
As consequências da privação de sono são amplas e sérias. O risco de hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, obesidade, depressão, ansiedade, acidentes e até mortalidade aumenta de forma significativa. Sacrificar horas de descanso nunca representa ganho de tempo, mas um prejuízo silencioso e contínuo.
A ciência é clara: dormir não é uma escolha, é uma necessidade fisiológica. Adultos precisam, em média, de sete a nove horas de sono por noite. Mais do que isso, precisam dormir com qualidade. Vale refletir. Você tem respeitado o tempo que seu corpo pede?
Em uma sociedade acelerada, priorizar o sono pode parecer desafiador, mas é uma das decisões mais inteligentes para quem busca bem-estar. Dormir bem transforma o humor, a energia, o foco e a saúde. Dormir é descanso, mas é também cuidado, prevenção e, acima de tudo, sobrevivência.
# Artigo de Raquel Rocha, Neuropsicóloga, Especialista em Saúde Mental, Escritora e Presidente da Academia de Letras de Itabuna.
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